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Hepatite B ou hepatite C: qual a diferença?

Hepatite B ou hepatite C: qual a diferença?

Foto do escritor: Livia Linhares
Livia Linhares
7 de set.
5 min de leitura

A dúvida entre hepatite B ou hepatite C costuma surgir após um exame alterado, uma exposição de risco ou o diagnóstico de alguém próximo. Embora ambas sejam infecções virais que atingem o fígado e possam evoluir de forma silenciosa, elas têm vias de transmissão, prevenção, exames e tratamentos diferentes. Saber distingui-las ajuda a reduzir a ansiedade e, principalmente, a buscar a avaliação adequada no momento certo.

O fígado participa da digestão, do metabolismo, da produção de proteínas e da eliminação de substâncias do organismo. Quando uma hepatite viral persiste por anos sem ser identificada, pode causar inflamação contínua, fibrose, cirrose e aumentar o risco de câncer de fígado. Mas essa evolução não é inevitável: diagnóstico precoce e acompanhamento especializado mudam de forma significativa o prognóstico.

Hepatite B ou hepatite C: o que muda entre elas?

A hepatite B é causada pelo vírus HBV, enquanto a hepatite C é provocada pelo HCV. A diferença não está apenas no nome do vírus. Cada uma tem comportamento próprio no organismo e exige interpretação específica dos exames.

Na hepatite B, a infecção pode ser aguda, quando ocorre recentemente, ou crônica, quando o vírus permanece por mais de seis meses. Muitos adultos eliminam o vírus espontaneamente após uma infecção aguda. No entanto, uma parcela desenvolve hepatite B crônica, condição que requer seguimento regular. O risco de cronificação é particularmente maior quando a transmissão ocorre no nascimento ou na primeira infância.

Na hepatite C, a fase inicial também pode passar despercebida. Porém, uma proporção relevante das pessoas infectadas não elimina o vírus sem tratamento e evolui para infecção crônica. A boa notícia é que a hepatite C atualmente tem tratamento oral altamente eficaz, capaz de eliminar o vírus na grande maioria dos casos.

Portanto, perguntar qual é mais grave não tem uma resposta única. Depende da fase da doença, da quantidade de fibrose no fígado, de outras condições de saúde, do consumo de álcool, da presença de obesidade ou esteatose e do acesso ao diagnóstico e tratamento. Ambas merecem atenção médica.

Como ocorre a transmissão

O vírus da hepatite B está presente no sangue e em secreções sexuais. Por isso, pode ser transmitido por relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de seringas ou materiais perfurocortantes, procedimentos com instrumentos não esterilizados e da mãe para o bebê durante o parto. Objetos que podem ter contato com sangue, como lâminas de barbear e alicates de unha, não devem ser compartilhados.

A hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue contaminado. O risco está associado, por exemplo, ao compartilhamento de agulhas e seringas, a procedimentos realizados sem condições adequadas de esterilização e a transfusões recebidas antes do aprimoramento da triagem de sangue. A transmissão sexual é menos frequente do que na hepatite B, mas pode ocorrer, especialmente em situações com exposição a sangue.

Abraçar, beijar, dividir talheres, usar o mesmo copo, tossir ou conviver no mesmo ambiente não transmite hepatite B ou C. Esclarecer isso é importante para evitar preconceito e isolamento desnecessário de quem recebeu um diagnóstico.

A vacinação é uma diferença decisiva

Existe vacina segura e eficaz contra a hepatite B. Ela faz parte do calendário de vacinação e também é indicada para adultos não imunizados, conforme avaliação do histórico vacinal. Pessoas com maior risco de exposição, familiares e parceiros de pacientes infectados podem precisar de orientação específica e exames para verificar a imunidade.

Não há vacina para hepatite C. A prevenção depende de não compartilhar materiais que possam ter sangue, exigir boas práticas de biossegurança em procedimentos e realizar testagem quando houver possibilidade de exposição. Após uma exposição recente a sangue ou secreções, a avaliação médica não deve ser adiada, pois a conduta varia de acordo com o vírus envolvido e o histórico de vacinação.

Sintomas: por que tantas pessoas não percebem?

Em muitos casos, tanto a hepatite B quanto a hepatite C não causam sintomas evidentes por anos. É comum que a suspeita apareça somente em exames de rotina, com alteração de enzimas hepáticas, ou durante uma investigação por outro motivo.

Quando existem manifestações, elas podem incluir cansaço persistente, náuseas, mal-estar, dor ou desconforto no lado direito do abdome, perda de apetite e urina escura. A pele e os olhos amarelados, conhecidos como icterícia, podem ocorrer, mas não estão presentes em todos os pacientes.

Em fases mais avançadas de doença hepática, podem surgir inchaço abdominal, edema nas pernas, perda de massa muscular, confusão mental, sangramentos digestivos ou coceira intensa. Esses sinais exigem avaliação sem demora. Ainda assim, a ausência de sintomas não significa que o fígado esteja sem inflamação ou fibrose.

Quais exames confirmam o diagnóstico?

Os exames para hepatite B e C não são iguais e precisam ser interpretados em conjunto. Na hepatite B, a avaliação costuma incluir marcadores como HBsAg, anti-HBs e anti-HBc. Dependendo do resultado, podem ser solicitados carga viral do HBV, transaminases, testes de função hepática e outros exames complementares. Uma sorologia isolada, sem análise do contexto, pode gerar interpretações equivocadas.

Para hepatite C, o anti-HCV é geralmente utilizado como exame inicial. Se ele estiver positivo, é necessário pesquisar o RNA do HCV para confirmar se há vírus circulante e infecção ativa. Uma pessoa pode ter anti-HCV positivo e RNA negativo, o que indica contato prévio com o vírus, mas não necessariamente hepatite C ativa no momento.

Além de identificar o vírus, é essencial avaliar as consequências no fígado. Exames de sangue, ultrassonografia e elastografia hepática podem ser indicados conforme cada caso. A elastografia é um método não invasivo que estima a rigidez do fígado e auxilia na avaliação da fibrose. Ela não substitui a consulta nem detecta sozinha a presença dos vírus, mas é muito útil para definir risco, necessidade de acompanhamento e estratégia terapêutica.

Tratamento da hepatite B e da hepatite C

Na hepatite B crônica, nem todo paciente precisa iniciar medicamento imediatamente. A decisão considera carga viral, nível das enzimas do fígado, grau de fibrose, idade, histórico familiar de câncer hepático e presença de outras doenças. Quando indicado, o tratamento com antivirais busca suprimir a multiplicação do vírus e reduzir o risco de progressão para cirrose e câncer de fígado. Em muitos casos, o seguimento é prolongado e inclui monitoramento periódico.

Na hepatite C, os antivirais de ação direta são administrados por via oral, geralmente por algumas semanas. O esquema varia conforme o perfil do vírus, o estágio da doença hepática, tratamentos prévios e função renal, entre outros fatores. Após o término, um exame confirma se o vírus foi eliminado. Mesmo após a cura, pacientes que já apresentavam cirrose precisam continuar vigilância para complicações hepáticas.

Em ambas as situações, evitar bebidas alcoólicas é uma medida relevante, pois o álcool pode acelerar a lesão do fígado. O uso de medicamentos, suplementos e produtos naturais também deve ser informado ao médico. Nem tudo o que é vendido como “natural” é seguro para quem tem doença hepática.

Quando procurar um hepatologista?

A avaliação especializada é recomendada diante de teste positivo para hepatite B ou C, alterações persistentes em exames do fígado, antecedentes de exposição a sangue ou diagnóstico de cirrose. Também merece investigação quem tem familiar com hepatite B, recebeu transfusão há muitos anos, realizou procedimentos em condições desconhecidas de esterilização ou apresenta fatores de risco sem testagem prévia.

O cuidado não deve se limitar a receber um resultado no papel. Ouvir o paciente, entender seu histórico, revisar exames anteriores e avaliar o grau de comprometimento do fígado permite uma conduta individualizada. Em Fortaleza, a consulta hepatológica associada, quando necessária, à elastografia hepática pode oferecer uma visão mais precisa sobre a presença de fibrose e os próximos passos.

Se existe a dúvida entre hepatite B ou hepatite C, ou se um exame trouxe um resultado inesperado, o caminho mais seguro é investigar com calma e critério. Muitas doenças do fígado permanecem silenciosas, mas não precisam avançar em silêncio.

 
 
 

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Dra. Lívia Carone

Hepatologia e Elastografia

CRM 10760 |  RQE 6416 | RQE 6415

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