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Cirrose descompensada: como identificar a piora do fígado

  • Foto do escritor: Livia Linhares
    Livia Linhares
  • 23 de ago.
  • 5 min de leitura

Uma barriga que aumenta em poucos dias, sonolência fora do habitual ou vômito com sangue não devem ser interpretados como desconfortos passageiros em quem tem doença do fígado. Ao pesquisar por cirrose descompensada, o mais importante é compreender que alguns sintomas podem indicar uma complicação séria e exigem avaliação médica imediata.

A cirrose é uma condição em que o fígado sofre uma cicatrização progressiva, chamada fibrose, que altera a sua estrutura e prejudica funções essenciais, como produzir proteínas, metabolizar substâncias e participar da coagulação do sangue. Quando o organismo ainda consegue compensar parte dessas alterações, a pessoa pode ter poucos sintomas. Na fase descompensada, porém, surgem complicações que indicam maior gravidade e necessidade de acompanhamento hepatológico próximo.

O que caracteriza a cirrose descompensada?

A descompensação não é definida apenas por uma alteração em exame de sangue. Ela ocorre quando a cirrose passa a causar manifestações clínicas relevantes, como acúmulo de líquido no abdome, sangramento digestivo, alteração da consciência ou icterícia. Cada episódio precisa ser investigado, pois muitas vezes há um fator desencadeante tratável.

Infecções, consumo de álcool, uso inadequado de medicamentos, desidratação, sangramentos e piora da função dos rins estão entre situações que podem precipitar uma descompensação. Em alguns pacientes, a causa é identificada rapidamente; em outros, é necessário realizar uma investigação mais ampla. Por isso, não é seguro atribuir novos sintomas apenas à cirrose já conhecida ou tentar tratá-los por conta própria.

Cirrose descompensada: sinais de piora mais comuns

Os sintomas variam conforme a complicação presente. Ainda assim, algumas mudanças devem chamar a atenção do paciente e de seus familiares, especialmente quando surgem de forma recente ou se tornam mais intensas.

Aumento da barriga e inchaço nas pernas

O acúmulo de líquido no abdome, conhecido como ascite, pode provocar aumento do volume abdominal, sensação de peso, falta de apetite e dificuldade para respirar. Às vezes, a pessoa percebe que as roupas apertaram em poucos dias ou que ganhou peso rapidamente, sem mudança na alimentação.

O inchaço nas pernas e nos pés também pode acompanhar a retenção de líquidos. Embora diuréticos façam parte do tratamento em alguns casos, a dose deve ser ajustada exclusivamente pela equipe médica. O uso inadequado pode causar queda da pressão, alteração de sódio e potássio e piora da função renal.

Confusão mental, sono excessivo e mudança de comportamento

A encefalopatia hepática é uma alteração do funcionamento cerebral associada à incapacidade do fígado de eliminar determinadas substâncias do organismo. Ela pode começar de maneira sutil: dificuldade de atenção, lentidão para responder, inversão do sono, irritabilidade ou esquecimento incomum.

Em quadros mais graves, pode haver desorientação, fala desconexa, sonolência intensa e redução do nível de consciência. Familiares costumam perceber esses sinais antes do próprio paciente. Confusão mental em uma pessoa com cirrose deve ser tratada como urgência, sobretudo quando acompanhada de febre, constipação, vômitos, sangramento ou redução da ingestão de líquidos.

Pele e olhos amarelados

A icterícia acontece quando há aumento da bilirrubina no sangue e pode deixar os olhos e a pele amarelados. Urina escura e fezes muito claras podem ocorrer junto. Em uma pessoa com cirrose, o aparecimento ou a intensificação desse amarelamento merece avaliação, pois pode indicar piora da função hepática, infecção, obstrução das vias biliares ou outra condição associada.

Sangramento no trato digestivo

A presença de varizes no esôfago ou no estômago é uma possível consequência da hipertensão portal, isto é, do aumento da pressão na circulação que chega ao fígado. Quando essas veias se rompem, podem causar hemorragia digestiva importante.

Vômito com sangue vermelho ou escuro, fezes pretas e muito malcheirosas, tontura, desmaio, fraqueza intensa ou palidez podem ser sinais de sangramento. Essa situação exige ida imediata a um serviço de emergência. Não se deve aguardar uma consulta marcada, dirigir sozinho ou utilizar anti-inflamatórios e medicamentos caseiros para tentar controlar o quadro.

Febre, dor abdominal e piora rápida do estado geral

Pacientes com ascite podem desenvolver infecção no líquido abdominal, chamada peritonite bacteriana espontânea. Nem sempre ela provoca dor intensa. Febre, dor ou sensibilidade na barriga, náuseas, queda da pressão, confusão mental e piora súbita do cansaço são sinais possíveis.

Infecções urinárias, respiratórias e de pele também podem descompensar a cirrose. Como a resposta do organismo pode ser diferente em pessoas com doença hepática avançada, até sintomas aparentemente discretos precisam ser relatados ao médico responsável.

Redução da urina e cansaço intenso

Urinar muito menos que o habitual, sentir tontura ao se levantar, apresentar pressão baixa ou fraqueza acentuada pode apontar para desidratação ou comprometimento dos rins. A função renal tem grande impacto no prognóstico da cirrose descompensada e deve ser acompanhada com exames e avaliação clínica.

Esse risco aumenta quando há diarreia, vômitos, uso de diuréticos sem supervisão, sangramento ou infecção. Beber água em excesso por conta própria também não é necessariamente a solução, pois a orientação sobre líquidos depende do grau de ascite, do sódio no sangue e de outras condições clínicas.

Quando procurar atendimento de urgência?

Alguns sinais não devem esperar. Procure atendimento de emergência diante de vômito com sangue, fezes pretas, desmaio, confusão mental, sonolência importante, febre associada a ascite, falta de ar relevante, dor abdominal intensa ou redução acentuada da urina.

Também é prudente buscar avaliação rápida se o abdome aumentar muito em pouco tempo, se o inchaço piorar apesar do tratamento ou se surgir icterícia nova. Leve, sempre que possível, uma lista dos medicamentos em uso, resultados recentes de exames e informações sobre alergias e doenças associadas. Esses dados ajudam a equipe a tomar decisões mais seguras.

Como é feita a avaliação da piora da cirrose?

A consulta hepatológica começa com uma escuta cuidadosa dos sintomas, do uso de medicamentos, da ingestão de álcool e de episódios prévios de descompensação. O exame físico avalia, entre outros pontos, ascite, edema, icterícia, estado mental e sinais de infecção ou sangramento.

Exames de sangue permitem analisar a função do fígado, a coagulação, os rins, os eletrólitos e sinais inflamatórios. Ultrassonografia e outros métodos de imagem podem ser necessários para avaliar líquido abdominal, circulação portal, nódulos no fígado e outras complicações. Quando há ascite nova, em piora ou associada a febre, a análise do líquido pode ser decisiva para afastar infecção.

A elastografia hepática tem grande valor na avaliação da fibrose, principalmente nas fases anteriores e no acompanhamento de diversas doenças crônicas do fígado. Em uma cirrose já descompensada, ela pode complementar o histórico clínico, mas não substitui a avaliação das complicações, os exames laboratoriais e a vigilância para câncer de fígado.

O que ajuda a reduzir novas descompensações?

O tratamento é individualizado e depende da causa da cirrose e das complicações já existentes. Para algumas pessoas, o controle da ascite exige restrição de sal e medicamentos; para outras, pode ser necessário drenar o líquido abdominal em ambiente assistido. Varizes digestivas podem requerer endoscopia e medicações específicas. A encefalopatia, por sua vez, precisa de tratamento e investigação do fator que a desencadeou.

A suspensão completa do álcool é indispensável quando há hepatopatia alcoólica e recomendada em pessoas com cirrose, independentemente da causa. Também é essencial evitar medicamentos sem orientação, principalmente anti-inflamatórios, alguns fitoterápicos e suplementos de procedência incerta. Mesmo produtos considerados naturais podem causar lesão hepática ou interferir no tratamento.

Manter as consultas, realizar exames no intervalo indicado e comunicar mudanças clínicas precocemente faz diferença. Em determinadas situações, a avaliação para transplante hepático deve ser discutida antes que ocorram complicações graves repetidas. Isso não significa que o transplante será necessário para todos, mas permite planejamento adequado quando ele passa a ser uma possibilidade.

Diante de cirrose descompensada, observar o corpo e ouvir a família é parte do cuidado. Mudanças como confusão, sangramento, febre ou crescimento rápido da barriga não devem ser normalizadas: procurar assistência no momento certo pode evitar complicações maiores.

 
 
 

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Dra. Lívia Carone

Hepatologia e Elastografia

CRM 10760 |  RQE 6416 | RQE 6415

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