top of page

Controle da ascite cirrótica: quando agir

Foto do escritor: Livia Linhares
Livia Linhares
21 de set.
5 min de leitura

A barriga que aumenta de volume, a roupa que deixa de servir em poucos dias e a falta de ar ao se deitar são situações que exigem atenção em quem tem doença hepática. O controle da ascite cirrótica não se resume a diminuir o líquido no abdome: envolve identificar a gravidade da cirrose, prevenir infecções, preservar a função dos rins e reconhecer o momento em que tratamentos mais avançados ou avaliação para transplante devem ser considerados.

A ascite é o acúmulo de líquido dentro da cavidade abdominal. Na cirrose, ela costuma indicar que o fígado já apresenta uma alteração funcional relevante, chamada descompensação. Isso não significa que não haja tratamento, mas reforça a necessidade de acompanhamento regular e individualizado com especialista em fígado.

Por que a ascite acontece na cirrose?

A cirrose modifica a estrutura do fígado e dificulta a passagem do sangue pela veia porta, um grande vaso que leva sangue do sistema digestivo ao fígado. Esse aumento de pressão, conhecido como hipertensão portal, participa diretamente da formação da ascite.

Ao mesmo tempo, o organismo passa a reter sódio e água, especialmente por alterações na circulação e na função dos rins. A redução da produção de albumina pelo fígado também pode contribuir, pois essa proteína ajuda a manter o líquido dentro dos vasos sanguíneos. O resultado é a passagem de líquido para o abdome.

A ascite pode surgir de forma gradual ou aumentar rapidamente. Nem todo aumento abdominal, porém, corresponde a ascite. Ganho de peso, gases, constipação e massas abdominais também podem causar distensão. Por isso, o exame clínico e a ultrassonografia têm papel importante para confirmar a presença de líquido e avaliar o fígado, o baço e a circulação portal.

Controle da ascite cirrótica: o que orienta o tratamento

O tratamento é definido conforme o volume da ascite, os sintomas, os exames de sangue, a pressão arterial, a função dos rins e a causa da cirrose. Uma pessoa com pequena quantidade de líquido e função renal estável pode precisar de uma estratégia diferente daquela que apresenta ascite volumosa, edema nas pernas, baixa pressão ou episódios prévios de infecção.

A restrição de sódio costuma ser uma das bases do cuidado. Não se trata, porém, de simplesmente parar de colocar sal na comida. Grande parte do sódio consumido está em alimentos industrializados, embutidos, temperos prontos, caldos concentrados, enlatados, biscoitos salgados, queijos muito salgados e refeições prontas. Uma orientação nutricional realista ajuda a reduzir o sal sem comprometer a alimentação e a ingestão adequada de proteínas.

Em pacientes selecionados, o médico pode indicar diuréticos para aumentar a eliminação de sódio e água pela urina. Esses medicamentos exigem acompanhamento cuidadoso. Quando usados sem supervisão ou em doses inadequadas, podem causar queda da pressão, alterações do potássio e do sódio, piora da função renal e confusão mental. Por esse motivo, não se deve ajustar a medicação por conta própria apenas porque a barriga ou as pernas parecem mais inchadas.

A pesagem frequente pode ser útil para acompanhar a resposta ao tratamento. Mudanças rápidas de peso devem ser avaliadas no contexto clínico, pois perder líquido em excesso também pode ser prejudicial. O objetivo é aliviar sintomas e reduzir complicações, sem comprometer os rins ou a circulação.

Paracentese: quando retirar o líquido é necessário

Quando há grande quantidade de ascite, desconforto importante, dificuldade para respirar ou pouca resposta aos diuréticos, pode ser indicada a paracentese. O procedimento consiste em retirar o líquido do abdome por meio de uma punção, realizada com técnica adequada e avaliação médica.

A paracentese pode proporcionar alívio significativo, mas não corrige sozinha a causa da ascite. Em retiradas de grande volume, a reposição de albumina pode ser necessária para reduzir o risco de alterações circulatórias e renais. A decisão depende da quantidade removida e da condição clínica de cada paciente.

Também é comum que uma amostra do líquido seja enviada para análise, especialmente em casos de ascite recente, internação, piora clínica ou dor abdominal. Esse exame permite investigar uma complicação séria chamada peritonite bacteriana espontânea.

Infecção do líquido ascítico: uma urgência a ser tratada

A peritonite bacteriana espontânea é uma infecção do líquido da ascite que pode ocorrer mesmo sem uma fonte evidente no abdome. Febre e dor abdominal são sinais possíveis, mas nem sempre estão presentes. Algumas pessoas manifestam apenas sonolência, confusão, perda de apetite, piora da função dos rins, queda da pressão ou agravamento súbito da ascite.

Esse quadro precisa de diagnóstico e tratamento rápidos, frequentemente em ambiente hospitalar. Para pacientes que já tiveram esse tipo de infecção ou apresentam risco elevado, o hepatologista pode avaliar a necessidade de prevenção medicamentosa. Essa conduta não é universal e deve considerar o histórico clínico, os resultados dos exames e os riscos do uso prolongado de antibióticos.

Sinais que pedem avaliação médica imediata

Quem tem cirrose e ascite deve procurar atendimento sem demora diante de febre, dor abdominal, vômitos persistentes, confusão mental, sonolência incomum, sangramento digestivo, falta de ar importante ou redução acentuada da urina. Fezes muito escuras, vômito com sangue e desmaio também são sinais de urgência.

O aumento rápido do abdome ou do inchaço nas pernas merece contato médico, mesmo sem dor. Pode indicar progressão da retenção de líquido ou necessidade de rever a estratégia terapêutica. A piora após consumo de álcool, uso de anti-inflamatórios ou abandono das medicações deve ser comunicada à equipe assistente.

Quando a ascite se torna resistente ao tratamento

Alguns pacientes apresentam ascite recorrente ou de difícil controle, mesmo com dieta com pouco sódio e uso adequado de diuréticos. Nessa situação, pode ser necessário realizar paracenteses periódicas e investigar se há possibilidade de procedimentos para reduzir a pressão portal, como o TIPS, uma comunicação criada dentro do fígado entre vasos sanguíneos.

O TIPS pode ser muito útil em casos selecionados, mas não é indicado para todos. Ele pode aumentar o risco de encefalopatia hepática, condição que causa alterações de comportamento, atenção e consciência pela dificuldade do fígado em eliminar substâncias tóxicas. A escolha depende da função do fígado, do coração, dos rins, da presença de encefalopatia e de outros fatores clínicos.

A ascite resistente também é um sinal para discutir avaliação para transplante hepático. O transplante não é decidido apenas pelo volume de líquido no abdome, mas a presença de ascite marca uma fase da doença em que o prognóstico precisa ser revisto de forma cuidadosa.

Acompanhamento especializado faz diferença

O cuidado da cirrose com ascite exige acompanhamento contínuo. Consultas, exames laboratoriais e ultrassonografias ajudam a monitorar a função hepática e renal, a pressão portal e o risco de outras complicações, como varizes no esôfago e câncer de fígado.

Também é fundamental tratar a causa da cirrose quando possível. Suspender completamente o álcool em casos de hepatopatia alcoólica, controlar hepatites virais, manejar doenças autoimunes e tratar condições metabólicas pode reduzir a progressão do dano hepático. Cada diagnóstico tem particularidades, e não existe uma única conduta adequada para todos.

Viver com ascite cirrótica traz limitações e inseguranças, mas o acompanhamento atento permite antecipar problemas e tomar decisões com mais segurança. Diante de qualquer mudança no inchaço, no peso, na urina ou no estado mental, a orientação mais segura é não esperar os sintomas se tornarem intensos para buscar avaliação hepatológica.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


  • Instagram - White Circle

© 2020 por Pigup comunicação. 

Dra. Lívia Carone

Hepatologia e Elastografia

CRM 10760 |  RQE 6416 | RQE 6415

bottom of page